Michelangelo Antonioni sempre pôs em cheque uma gama de angústias e dúvidas do homem moderno quando, nos anos 60, fez filmes onde esta temática foi abordada com maestria. Depois de fazer “A Aventura”, “A Noite” e “O Eclipse”, o grande diretor se viu seduzido pela “swinging London” e foi ambientado na metrópole inglesa - umbigo dos modernos psicodélicos - que realizou “Blow Up”, aquí pós-titulado “Depois daquele beijo” e agora lançado, no Brasil, em DVD pela Warner – louvável iniciativa, já que estes clássicos são cada vez mais dificeis de serem vistos por um público sem acesso a cinemas de arte.
Na época, o filme já fazia estardalhaço, com comentários que iam desde a participação de nomes ligados ao “top list” da época, até mesmo por ter Antonioni colorido a grama dos parques públicos de Londres para ter um resultado pictórico mais intenso. Mas “Blow Up” paira acima disto tudo.
Sim, Antonioni coloriu a grama, nomes de famosos pipocam o tempo todo na tela: lá está Verushka ( a top model que fez vanguarda emprestando seu corpo não só para estilistas mas também para artistas plásticos); lá estão surpreendentemente os Yardbirds, que seriam o embrião do Led Zeppelin, tocando numa boite repleta de gente esquisita (cena das mais hilárias do filme); lá estão David Hemmings, Vanessa Redgrave e Sarah Miles, uma trilogia de superstars do cinema; lá está a trilha magnífica de Herbie Hancock (que no DVD pode ser ouvida em separado) e lá está Júlio Cortazar, de cujo conto foi feito o roteiro do filme. Resumindo: tinha que dar certo... E deu... Mas Antonioni é um gênio e não ficou só nisto, numa “receita” onde bons ingredientes geram algo de bom paladar. O filme é uma viagem para dentro de temas como o mistério, a ilusão, a dúvida, a verdade e, claro, a morte.
Ao ser testemunha acidental de um (será???) assassinato, um fotógrafo mergulha em situações que tenta desvendar fazendo ampliações fotográficas (o blow-up do título), as quais o retiram do mundo oco da moda, da beleza e do sexo, para lançá-lo em questões filosóficas profundas, bem ao estilo do mestre italiano. O diferencial deste filme, para os demais da carreira de Antonioni, se fixa no clima surreal dado na sua construção . Como era pertinente ao momento histórico sessentista, tudo se assemelha a uma grande viagem turbinada por excesso de marijuana. De qualquer forma, ao colocar o protagonista no meio desta jornada, o diretor também nos inclui, e, de repente, nos vemos num parque londrino, acompanhando um jogo de tênis sem bolinha, cujo final...
Ora, vejam o filme...
Por: Afonso Rodrigues - 28/10/2004
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quarta-feira, outubro 18, 2006
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