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Luiz Roberto Nascimento
CRA-SP-57867(Pós Graduado em Finanças)
05, Março/2002
Tradicionalmente o segundo domingo de Maio é comemorado o Dia das Mães; no dia 30 de abril foi comemorado o Dia Nacional da Mulher, mas anteriormente em 08/março foi festejado o Dia Internacional da Mulher.
Recorrendo ao Dicionário de Datas Comemorativas - Ed.UNED, de autoria de André Carvalho, assim se manifesta a cerca das datas:
a) Dia das Mães:... A origem de comemoração do Dia das Mães é a seguinte: uma senhorita norte-americana, Miss Annie Jerwis, de Filadélfia, depois de perder sua mão, mostrava-se inconsolável. Quanto mais tempo decorria, em vez de diminuir, parece que maior ia-se tornando a dor daquele delicado coração de mulher. Algumas amigas de Annie Jerwis, verdadeiramente contristadas com aquele sofrimento, e com o intuito de elevar-lhe o espírito, prontificaram-se a perpetuar a memória da mãe da amiga. Comunicaram, então a ela a intenção de realizar alguma coisa que imortalizasse a lembrança de sua mãe querida. Miss Annie Jerwis, de espírito delicado, sensibilizou-se profundamente com aquela idéia. E pediu, então, que uma homenagem se tributasse, não apenas a sua mãe, mas a todas as mães, vivas e mortas. Realizada a festa, foi ela repetindo e generalizando por outras localidades, como tudo o que agrada ao povo. E, anualmente, em toda a nação norte-americana, grandes homenagens se prestavam às mães. O presidente dos Estados Unidos, Woodrow Wilson, indo de encontro aos desejos do povo, tornou oficial aquela comemoração, instituindo, por decreto, o Dia das Mães, em 09 de maio de 1914....E o Sr. Getúlio Vargas, quando ainda Chefe do Governo Provisório, pelo decreto nº21.366, de 05 de maio de 1932, tornou a festa também oficial no Brasil, instituindo o Dia das Mães, a ser celebrado no segundo domingo de maio...".
b) Dia Nacional da Mulher : Foi a 30 de abril que nasceu a fundadora do Conselho Nacional da Mulheres, Sra. Jerônima Mesquita. Como homenagem àquela extraordinária mulher, grande filantropa, foi escolhido o dia de seu nascimento, 30 de abril para o Dia Nacional da Mulher."
c) Dia Internacional da Mulher : A data foi escolhida pela UNESCO, com o fim de assinalar a primeira manifestação de mulheres organizada em torno de reivindicações especificamente femininas. Em 08 de março de 1857, 129 operárias de uma fábrica têxtil de Nova Iorque paralisaram o trabalho reivindicando salário igual para função igual, exercida por homem. Os patrões trancaram e incendiaram a fábrica, e morreram queimadas as 129 operárias."
Já estudei este tema em 1985, gostaria de destacar algumas expressões que ouvi: Quais foram as mudanças observadas nos últimos tempos, que impulsionaram o movimento de reconhecimento de igualdade dos sexos? O que há de mal na mulher rural ser parideira e integrante da força de trabalho, será que ela se sente infeliz com esta condição? Ora, para responder estas duas questões, entre outras de pessoas que são incapazes de reconhecer que as mulheres são tão humanas quanto os homens.
Se quisermos extrapolar os limites de nosso país, exemplificaremos os EUA: em 1976 a Dra.. Shere Hite apresentou seu relatório que conclui "o sexo é uma instituição que consagra a opressão da mulher"; em 1983 a física Sally Ride torna-se primeira astronauta; em 1984 pela primeira vez uma mulher, Geraldine Ferraro, concorre à vice-presidência da República. Temos então alguns exemplos brasileiros: em 1975 a Dra. Eny Carbonari se tornava a primeira diretora de presídio do Rio de Janeiro e do país; no início dos anos '80 a antropóloga Maria Dulce Gaspar passou por 60 boates para compor sua tese, que passou para o livro "Garotas de Programa"; em 1985 a sexóloga Marta Suplicy publicou "De Mariazinha a Maria"; em 22 de julho de 1985, no Fórum Lafaiete/B.Horizonte, tomou posse a Juíza Auditora Militar da Justiça Militar de Minas Gerais, a Dra. Sônia Diniz Viana.
Mais recentemente podemos citar o estudo da CIDH - Comissão Interamericana de Direitos Humanos, órgão vinculado à OEA, apresentando o Informe sobre a Condição da Mulher nas Américas, conforme divulgado em O ESTADO DE SÃO PAULO-25/abr/98-pag. A-15. No caso da mulher rural é praticamente impossível saber seu grau de felicidade e realização pessoal, pois a ela não foi dada outra opção a não ser gerar filhos e compartilhar com o homem os encargos do plantio e colheita.
Mas devemos continuar pensando no sopé da pirâmide social, ou seja como estão se sentindo as garis, as faveladas, as bóia-frias, as prostitutas das zonas de baixo meretrício e das jovens meretrizes que são encaminhadas, pela fome e até mesmo pelos pais, para complementar a renda familiar, colocando à venda seus corpos nas cidades e nas estradas do interior do país.
Uma solução plausível para esta situação de degradação humana seria dar-lhes instrução, educação e cultura. Este é um processo longo, difícil e complexo, pois somente dando estrutura cultural é que será possível dar condições de propiciar alternativas de conscientização das potencialidades e verdadeira razão de ser da mulher enquanto ser humano.
Isto quer dizer que desta forma ela será capaz de decidir como e quando deverá entregar-se de corpo, mente, espírito e alma a um ou vários homens, quantos filhos quer ter, qual sua tendência profissional e assim por diante. Outra alteração psicossocial extremamente necessária é a mudança da estrutura social machista que nos vem sendo imposta ao longo dos tempos, do tipo: homem não deve chorar, cozinha é lugar de mulher, futebol não é esporte feminino, mulher não deve subir em árvores, entre outros padrões machistas. Foi com espanto que ouvi de uma pessoa que "talvez meu lado feminino não estivesse se sobressaindo", devido ao afinco com que tenho me dedicando ao assunto, ao comentar que minha maneira de pensar havia modificado nos últimos anos, pois até então mulher nada mais era que um fenômeno biológico e natural representado pela minha mãe, esposa e filha, além do aspecto da estética das minhas colegas de trabalho.
É muito simples constatar que não seria muita coisa hoje se não fossem estas mulheres, principalmente o espírito crítico e a facilidade de percepção transmitidos por minha mãe (destaque-se que depois dos 50 anos desvencilhou-se das amarras da vida doméstica preenchida pelo tricô e foi à luta, sendo admitida por concurso no TRT-SP como Agente de Portaria, com muita garra concluiu o supletivo, fez o Curso Superior de Geografia e por concurso interno já é Auxiliar Judiciária). Outra mulher marcante em minha vida, tem sido minha esposa que além do apoio moral, compartilha vibrantemente em cada vitória e me levanta e me prepara para a próxima batalha, após cada derrota.
A alteração da estrutura social esperada, pelas mulheres, não deve ser imposta num estilo "Guerra dos Sexos", mas sim através da necessária manutenção da postura feminina deixando de lado o estilo feminista e agressivo, desta forma as mulheres deverão/poderão vir a se transformar nos agentes de mudança com sua natural feminilidade e não impositora de posições extremistas.
A crescente participação da mulher na força de trabalho é expressiva. Tendo em vista atual explosão demográfica, uma vez que a taxa de crescimento já atinge cifra em torno de 3% a.a., pode ser sugerida uma mescla de maternidade responsável com um controle de natalidade para que seja interrompido o ciclo de pobreza, subnutrição, risco de vida para a mãe e o bebê, delinqüência juvenil e todos os problemas de carência sócio econômica que imperam atualmente nas favelas, periferia e no meio rural.
A respeito da violência sexual, acredito que será reduzida na medida em que haja conscientização feminina de diminuir o sentido "mulher vende tudo", até seu próprio corpo. No entanto deveremos exercer não uma censura prévia contra novela, filmes de televisão e de cinema de uma forma puritana, mas sim uma que se respeite as diferenças regionais e que dê liberdade de escolha às famílias tradicionais de todo o território nacional.
Para encerrar gostaria de deixar à reflexão dos seres humanos interessados num novo gênero de princípio de relações humanas, as palavras do grande pensador argentino Carlos Bernardo Gonzalez Pecotche, que em sua novela psicodinâmica O Senhor de Sandara, em castellano à página 307 temos:
"...Tanto o homem como a mulher haviam sido dotados do poder de pensar, de sentir, de amar, de criar e procriar, com o qual essa finalidade se irá cumprindo cronologicamente. Mas ainda descobriu algo mais, e era o papel principalíssimo que a mulher haveria de desempenhar na vida do homem, já que na natureza feminina está contida grande parte dos mistérios que o homem deverá descobrir para lograr sua ascensão ao domínio da sabedoria"
Mais adiante, à página 427, encontramos: "Escravas da vaidade, do orgulho e de outras não menos perniciosas debilidades que influem sobre a instabilidade humana, se entregam sem recato nos braços do capricho quando a vida lhes sorri" .
Já em Revista Logosofia - Março/1941, reproduzido na coleção da revista Logosofia, Tomo III, página 2 assim se pronunciou: "...A mulher deve ser fina em seus modos e em sua linguagem. Todo gesto, expressão ou atitude que atente contra sua feminilidade, a enfeia e chega até convertê-la em um ser que inspira desprezo. Para adquirir as belas qualidades que tanto adornam seu caráter, é necessário que a mulher se disponha a ele com especial dedicação. Aprendendo a conhecer de que modo os pensamentos atuam e influenciam a vida, buscará a companhia daqueles que elevem seu espírito e contribuam, por um lado a dar brilho a sua figura de mulher superior no meio ambiente em que atue, e por outro, a que sua alma desfrute das inumeráveis prerrogativas que abre o conhecimento às possibilidades de viver uma vida mais ampla e mais cheia de atrações que a vulgar, por conter uma variedade tão incontável de motivos que não só despertam ao ser interno em um novo mundo, senão que o extasiam ante a grandeza dessa parte da criação que permanece ignorada para os que não sabem que existe nem se aprestam a obter os meios para conhecê-la. O cultivo mental deve constituir, pois, para a mulher, uma necessidade intensa como a que sente para embelezar sua pessoa... E quem senão os próprios filhos haverão de recordar com gratidão essa graça, pouco menos que sublime, que uma mãe inteligente e culta derrama sobre a alma dos mesmos? Que prêmio maior pode haver para seus sacrifícios que aquele que em seu nome, símbolo de exemplo, seja bendito e venerado por todos?
Mulheres assim como as que forjam o ideal das gerações."Luiz Roberto Nascimento
CRA-SP-57867(Pós Graduado em Finanças) http://www.dominiofeminino.com.br/eles/oito_de_marco.htm
Dia Nacional da Mulher
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Hoje, dia 30 de abril, comemora-se o Dia Nacional da Mulher. Como as luzes fortes dos holofotes iluminaram o dia 8 de março, Dia Internacional da Mulher, o dia 30 de abril fica às escuras.
A mídia e o comércio comandam a importação de datas comemorativas, da moda, do nosso procedimento, da cultura, da linguagem e até do folclore, haja vista a repercussão do Dia das Bruxas. Nada de xenofobia nesta colocação, mas, se há tantos valores aqui, por que buscá-los em outras plagas? Penso que o Dia Nacional da Mulher deveria ser mais divulgado e, este sim, muito festejado.
O Dia Nacional da Mulher é comemorado aos 30 de abril, data de nascimento de uma grande brasileira: Jerônima Mesquita, um nome desconhecido para muitos. E quem foi Jerônima Mesquita? Foi uma das ilustres brasileiras que viveram no início do século 20. Nascida em Leopoldina (MG), aos 30/4/1880 foi, ainda moça, concluir seus estudos na Europa. Retornando, após observar outro tipo de vida, não se conformou com a situação preconceituosa imposta às mulheres de sua terra natal.
Dotada de inteligência, perspicácia e muito diligente, Jerônima se uniu a um grupo de mulheres combativas e fundou o Conselho Nacional das Mulheres. Se hoje as mulheres têm direito a voto, devem-no a ela, que foi sufragista e lutou para que, em 1932, todas as mulheres, acima de 18 anos, pudessem votar.
Engajou-se em frentes de assistência social, sendo uma das fundadoras da Pró-Matre, hospital beneficente que tinha por objetivo acolher gestantes pobres. A matriz foi no Rio de Janeiro, mas hoje, há hospitais com esse nome em muitas cidades brasileiras; fundou, também, a Associação Cruz Verde. Todos sabem que no início do século 20 grassava, no Brasil, a fome, a febre amarela, a peste bubônica, a varíola, doenças agravadas pela subnutrição do povo. Foi nessa época que Jerônima Mesquita mais atuou.
Numa das poucas entrevistas que deu antes de falecer, o que ocorreu em 1972, disse que ficara feliz com a promulgação da Lei 4121/62, conhecida como Estatuto da Mulher Casada que, entre outras mudanças, concedeu às mulheres o direito de trabalhar fora do lar sem autorização do marido ou do pai. Hoje, com o Código Civil Brasileiro modificado, a situação da mulher está diferente e sua condição jurídica menos discriminatória. Ela também gostaria de ter visto isso.
Penso que, pelo exposto, deveríamos dar mais atenção e divulgação ao Dia Nacional da Mulher, que foi sancionado pelo último presidente militar João Batista Figueiredo, pela Lei 6.791/80. A intenção deste artigo é tornar o Dia Nacional da Mulher e o nome de Jerônima Mesquita mais conhecidos. Valerá a pena investir nisso.
Algumas ações pioneiras já estão aparecendo, como o 1º concurso em homenagem ao Dia Nacional da Mulher que foi promovido pelo Conselho Municipal dos Direitos da Mulher, presidido pela Dra. Aparecida Rodrigues Mazzola e que teve a participação de 152 poesias, a maioria escrita por homens. A entrega dos prêmios será no próximo dia 4 de maio, em solenidade especial que acontecerá na Sala Glória Rocha, às 19h30. E outras comemorações virão! Nós, brasileiras merecemos!
Hoje, dia 30 de abril, é o Dia Nacional da Mulher, vamos comemorar!
JULIA FERNANDES HEIMANN é presidente da Academia Feminina de Letras e Artes de Jundiaí, membro da Academia Jundiaiense de Letras e do Grêmio Cultural Prof. Pedro Fávaro.http://www.portaljj.com.br/interna.asp?Int_IDSecao=17&Int_ID=18130
Tecnologia e hipocrisia digital
José Colucci Jr.(*)
A capa do Los Angeles Times de segunda-feira (31/3/2003) mostra um soldado britânico em meio a uma multidão de iraquianos durante a tomada de Zubayr. Com o dedo no gatilho, uma das mãos segura o rifle de assalto SA80 enquanto a outra faz sinal para que o iraquiano que traz no colo uma criança abaixe para proteger-se da artilharia inimiga. Diz a manchete: "Em Basra, pânico como tática de guerra". O autor é o premiado e experiente Brian Walski, fotógrafo do LA Times desde 1998. A foto custou-lhe o emprego. Dois dias depois de sua publicação, uma nota do editor explicava aos leitores que Brian Walski fora demitido por violar a política do jornal de "não alterar o conteúdo de fotos jornalísticas".
A foto de Walski não é a mais dramática das que a invasão do Iraque originou, mas bem poderia entrar na lista das mais controversas. Alguém notou que alguns civis iraquianos aparecem mais de uma vez. Como a clonagem humana não está na lista dos muitos horrores que se atribuem a Saddam Hussein, o jornal resolveu investigar. Walski, ainda no Iraque, declarou por telefone que tinha usado o computador para combinar elementos de duas fotos, tiradas em momentos diferentes e, assim, melhorar a composição. Na nota de demissão o LA Times republicou a foto manipulada digitalmente ao lado das originais.
A condenação de Brian Walski pela imprensa mundial foi unânime e sua pena aceita como justa. Quase todos os grandes jornais americanos e brasileiros têm regras para evitar a alteração do conteúdo de fotografias por fotógrafos e editores. Nos EUA, a Associação Nacional dos Repórteres Fotográficos (NPPA) estabeleceu que "alterar o conteúdo editorial de uma foto é quebra dos padrões éticos reconhecidos pela NPPA". A Associated Press adota normas similares. Em listas de discussão, profissionais de imprensa, com raras exceções, proclamaram que Brian Walski é um pária, um homem que aviltou os ideais da profissão. A demissão de Walski foi legítima. Caso encerrado.
Será que é tão simples?
Foto não é documento
Espanta que profissionais de imprensa ainda paguem tributo à ultrapassada noção de que a fotografia é documental e imparcial, e jamais deveria ser conspurcada pela manipulação digital. A fotografia nunca foi imparcial e a manipulação sempre existiu, embora não fosse tão eficiente.
O poder documental que se atribui à fotografia advém da percepção de que a imagem fotográfica é uma espécie de impressão digital (aqui relativa aos dedos, não a dígitos, embora a raiz latina seja a mesma) do objeto fotografado. O filósofo Charles Sanders Peirce classificou a fotografia como índice, isto é, um signo que é como um traço deixado por seu objeto, a exemplo da pegada que um pé descalço deixa na areia molhada.
A crença na força documental da fotografia diminuiu através dos tempos, sem jamais desaparecer. O público que se acanhava ao fitar os olhos das diminutas figuras dos daguerreótipos, de tão reais estas lhe pareciam, já não se iludia com as extraordinárias manipulações de laboratório do começo do século. Em 1901, o genial Valério Vieira celebrizou-se com "Os Trinta Valérios", em que o rosto do fotógrafo repete-se na audiência, nos músicos, no maître, no garçom, nos retratos pendurados na parede e no busto que enfeita um móvel. Esse marco da fotomontagem no Brasil evidencia as possibilidades da montagem e faz o público suspeitar da realidade fixada pela prata no papel. Mais tarde, os fotógrafos de Stalin levaram ao grau máximo a arte da manipulação da imagem fotográfica para fins políticos.
Mas o fato é que a manipulação começa muito antes do processamento. A ideologia do fotógrafo transparece na seleção do assunto e passa pela escolha de lentes, abertura, enquadramento e exposição. O fotógrafo do jornal de oposição pode optar por fotografar o comício de perto, com uma grande angular de 20 mm, e fazer a praça parecer vazia; o fotógrafo do jornal da situação pode usar uma telefoto de 300 mm e, pela escolha do ângulo, comprimir a perspectiva para cercar o candidato de um mar de cabeças humanas. Qual das fotos retrata melhor a realidade? Por que a pós-manipulação é pior do que a pré-manipulação? Ou os fotojornalistas deveriam usar apenas a lente de 50 mm e filme preto e branco, como fazia Henri Cartier-Bresson?
A manipulação também pode ser feita pelo editor de fotografia, através da escolha das fotos, dos cortes e pela justaposição de imagens que, isoladamente, contariam uma história diferente. Nas redações de hoje, com grande perda para o leitor, o editor de fotografia freqüentemente cede lugar aos diagramadores e editores de texto.
Muitas vezes a manipulação da imagem é feita pelo fotografado. Quem não se lembra de Maluf agradecendo com as mãos para o céu e um sorriso no rosto as vaias que ouvia da multidão. Nas fotos e na TV parecia que estava sendo aplaudido.
O enquadramento é uma das formas mais dramáticas de manipulação da informação. Quem duvidar que compare duas imagens recentes da invasão do Iraque, uma no website da CNN, outra no da al-Jazira. A al-Jazira optou pelo impacto: o close-up extremo de um rosto de criança com sangue a escorrer do olho ferido. No website da CNN a mesma situação – reconhecemos o rosto e o ferimento – é apresentada pela imagem de um menino cercado de marines que lhe prestam os primeiros socorros. São duas posições ideológicas distintas. Qual delas representa a realidade? Seria talvez uma terceira foto, uma que mostre as demais vítimas dos bombardeios, numa profusão de sangue, nervos, ossos e vísceras? Ou seria um enquadramento ainda mais amplo, que mostre também os dirigentes de empresas americanas negociando o loteamento do Iraque pós-guerra enquanto França e Rússia choram as oportunidades perdidas?
Toda a foto é um recorte de uma realidade mais complexa, uma representação bidimensional de um mundo de três dimensões. Nesse ponto a fotografia não é diferente de um texto jornalístico. Pode-se mentir com ambos.
Manipulações e manipulações
As famosas fotos de Eugene Smith, da revista Life, sobre a contaminação por mercúrio da baía de Minamata, no Japão, foram manipuladas à exaustão. Em artigo para uma revista especializada o fotógrafo explicou como produziu o efeito dramático de luz e sombra na bela foto da mãe que banha o filho defeituoso. As áreas escuras foram ressaltadas pela exposição seletiva no ampliador e as altas luzes destacadas pelo retoque manual com ferricianeto de potássio. As imagens de Eugene Smith chamaram a atenção do mundo para o problema da contaminação ambiental e das autoridades japonesas para o drama das populações afetadas. Sua função documental e social cumpriu-se plenamente apesar da manipulação, ou mesmo por causa desta.
Caso diferente foi a capa da revista Times de junho de 1994, que mostra uma foto de O. J. Simpson manipulada digitalmente para tornar a sua pele mais escura e, portanto, na visão de muitos americanos, sua aparência mais sinistra. Como era época de seu julgamento por homicídio, a Times foi acusada de propagar o racismo e influenciar indevidamente o processo legal. O editor da revista retratou-se de sua posição inicial de que a foto fora retocada para "converter-se num ícone da tragédia" e desculpou-se em público pela manipulação.
Qual a diferença entre as duas fotos, a de Eugene Smith e a da capa da Times? Ambas foram manipuladas, mas com intenções diversas e, principalmente, interpretações diversas pelo público. Novamente a comparação com o texto jornalístico é inevitável. Há textos honestos e textos desonestos, mas a distinção pouco tem a ver com o número de adjetivos e tropos semânticos que o autor emprega.
Foto-hipocrisia
Os veículos de imprensa têm que contrapor a necessidade de estabelecer limites para a manipulação de imagens, sob pena de comprometer a sua credibilidade, com o fato sobejamente conhecido de que foto boa vende. O resultado, não poucas vezes, é a hipocrisia.
A fotografia já foi acusada de ameaçar pintores, ilustradores e redatores. Acusam-na agora de ameaçar a credibilidade do jornalismo. Qual é o nível de manipulação a ser tolerado numa foto jornalística? Ajustar o contraste e o brilho de uma cena? Desfocar elementos visuais que distraiam o leitor? Dar uma esticadinha no fundo para encaixar o logotipo da revista? Remover uma ruga do canto da boca da atriz de telenovela? Eliminar os fios elétricos que atrapalham a composição? Eliminar de uma foto esportiva o logotipo de um produto que não pagou merchandising? Juntar numa mesma foto personagens que nunca estariam juntas por vontade própria? Que jogue a primeira pedra o fotógrafo que nunca usou nenhum desses recursos. Ou vale a teoria de que manipulação é aceitável desde que o fotógrafo não seja pego com o dedo no mouse?
João Bittar, editor de fotografia da Folha de S. Paulo, disse numa entrevista que o jornal não admite "qualquer manipulação que altere o sentido que o profissional quis dar a uma foto". Se o Los Angeles Times adotasse o mesmo critério Brian Walski não deveria ter sido demitido.
O sentido que Brian Walski queria dar à foto foi o que ele realmente deu. Pode-se parar por aqui. Pode-se também argumentar que a manipulação fotográfica produzida por Walski, ao juntar dois momentos distintos numa mesma imagem, não alterou o sentido da informação que procurava transmitir. Qualquer fotógrafo pode atestar que a perspectiva conseguida pela ampliação da figura do homem com a criança no colo é similar à que teria sido produzida naturalmente por uma teleobjetiva se o fotógrafo estivesse mais distante. É concebível dizer que a foto alterada por Walski corresponde à cena que um jornalista presente descreveria em palavras sem ser acusado de mentir. Por que Walski foi demitido? Por manipular digitalmente uma foto ou por dominar mal o PhotoShop? Fotos digitais não têm original. Será que alguém suspeitaria que a foto foi manipulada se ele tivesse sido mais cuidadoso?
Outras fotos de guerra famosas vêm à mente: o momento exato da morte de um soldado durante a Guerra Civil Espanhola, por Robert Capa, e o hasteamento da bandeira americana em Iwo Jima, por Joe Rosenthal. Esta última originou selos, um monumento e imensa memorabilia patriótica. Sob ambas pesa a suspeita de terem sido forjadas, o que não impede que estejam entre as fotos históricas mais celebradas e reproduzidas de todos os tempos.
O instante – essa entidade fugaz e breve – é o deus dos fotojornalistas. Para os puristas da profissão qualquer alteração feita após o momento em que o diafragma se fecha é uma mentira. E uma mentira, seja ela grande ou pequena, continua sendo uma mentira. A tecnologia digital, no entanto, tem o poder de reescrever a história e tornar a mentira à prova de detecção. A milésima cópia manipulada pode ser indistinguível do arquivo original.
É possível que na era da tecnologia digital o único meio de nos aproximarmos da verdade seja através do confronto de informações de fontes variadas, o que ressalta a importância de uma imprensa livre e multifacetada.
A verdade, versão digital
Não pretendi com este texto cheio de perguntas apresentar respostas para um problema tão complexo quanto o da manipulação de imagens jornalísticas. Quis apenas chamar a atenção para o quão ultrapassados – e, de certa forma, hipócritas – são os limites estabelecidos e aceitos para a manipulação de fotos na imprensa.
Se as técnicas digitais multiplicaram as possibilidades de manipulação de imagens e não há originais de fotos digitais, outras maneiras de pensar a questão da autenticidade têm que surgir. Uma sugestão é encontrar um meio de identificar alterações de conteúdo através de um código inteligível aos leitores. Fotos manipuladas e claramente identificadas como tal serão julgadas com base na intenção do autor. Como não há meio de assegurar que uma determinada foto digital não foi manipulada, o leitor só pode contar com a reputação de seu autor e do veículo que a publica para decidir. Exatamente como faz com qualquer texto jornalístico.
(*) Engenheiro em Boston (EUA); e-mail http://observatorio.ultimosegundo.ig.com.br/artigos/fd090420032.htm